Daniel Stur
Criatividade no dicionário quer dizer "ver-se,
ter coragem para empreender". Não seria
isso que falta hoje a todos nós nas empresas?
Que mundo corporativo é este em que vivemos,
onde milhares de cursos, palestras, seminários
e até congressos são realizados, "tematizando"
a criatividade; ilustrando o perfil do profissional
moderno como sendo possuidor, entre outros, de criatividade
para "batalhar" o seu trabalho?
Alias, essa é a questão de muitas
palestras que estão acontecendo neste exato
momento ? "O que você fez de diferente
no dia de hoje em seu ambiente de trabalho?".
Mas se criar é a capacidade de dar origem,
tirar do nada, imaginando, inventando novas idéias,
como fazer isto acontecer sem ousadia? Sem coragem
para empreender?
Não é fácil ser criativo. Não
é fácil ter uma idéia em que
ninguém ainda pensou. E quando "dá
o click" é preciso correr, pois já
dizia o poeta que o tempo não pára
e se demorar outro terá a mesma idéia
e, sendo mais rápido que você, terá
"todos os méritos da invenção".
Aí, para criar algo novo - de novo - será
desanimador.
Alias, já existem escolas com conteúdos
de criatividade obrigatórios em suas disciplinas
e em algumas universidades a criatividade faz parte
da grade curricular obrigatória. Agora pergunto:
criatividade se aprende? Com tantos cursos voltados
para esse foco (ou seria "moda de mercado"?),
fico com medo de pensar que sim.
Criatividade não pode ser considerada um
dom. Todos nós somos criativos. Afinal, quando
criança, como aprendemos a desenhar nossos
rabiscos? Ninguém nos ensina. Simplesmente
desenhamos o que achamos que devemos desenhar, pois
ainda não possuímos padrões
estabelecidos. E é isso que falta em nós,
quando adultos. Deixamos de criar. Nos apegamos
aos padrões que nos impedem de crescer, ampliar
e inovar.
Alias, o novo, muitas vezes deixa de ser aplaudido,
pois nossos padrões consideram o novo, algo
agressor, como um "soco na vista". Mas
não dá para sermos criativos sem sermos
ousados. Afinal, para criar algo novo, partindo
do nada é preciso empreender, ou seja, ousar.
Pena que nossas professoras, na pré-escola,
muita das vezes, ao invés de elogiar a crianção,
preferem tentar interpretá-la e mandar corrigir
os "imperfeitos". Até hoje lembro
quantas vezes era obrigado a preencher os branquinhos
deixados no desenho, pois aquilo era falta de capricho
no pintar.
Agora, se todos nós somos, por essência
criativos, por que não ousamos também?
Devíamos ousar mais nas nossas idéias.
Não ter medo de ouvir "não".
Acreditar naquilo que nossa voz interior diz (todos
somos um pouco "esquizofrênicos"
e ouvimos uma voz no nosso íntimo). Ousar
a acreditar. Acreditar em nós. Em nosso potencial.
Agora, vamos voltar ao mundo real... O mundo da
falta de emprego, da falta de espaço dentro
da empresa para fazer algo novo, do cansaço
excessivo, de sermos meramente operatórios,
esquecendo que podemos ser estratégicos também.
Vamos voltar ao mundo, onde é preciso fazer
o que o nosso superior quer e onde alguns, ainda
não permitem que possamos opinar.
Apenas operar.
Sim. Eu também vivo nesse mundo. O desemprego
me assusta. A empresa não abre espaço
para criar. Chego cansado em casa. Mas tento fazer
cada dia do meu trabalho de uma forma diferente.
Tem dias, que dá certo. Em outros, não.
Porém, busco ousar. Tento acreditar em mudanças.
Arrisco. Só o fato de sentar em frente ao
computador e parar para pensar no que escrever aqui,
é uma forma de criar. Do nada, surgir um
texto onde possa fazer outros leitores a pensarem
juntos. Aí entra o ousar. Afinal, chego à
conclusão que criar e ousar andam de mãos
dadas. Se não fosse isso, ainda estaríamos
nos comunicando por sinais de fumaça.
Se navegar é preciso. Criar é ainda
mais. E aí, embalados pelo famoso ditado
do Chacrinha "Na televisão nada se cria;
tudo se copia", o adaptamos para o mundo corporativo
e criamos o benchmarking. A forma mais politicamente
correta de copiarmos as idéias dos outros.
E isso é bom, pois colocamos em prática,
outras idéias, adaptadas às nossas
realidades corporativas, e tentamos fazer diferente.
Ou seja, criamos situações ao nosso
dia-a-dia, baseadas em idéias pré-existentes.
Ousamos sair da mesmice.
E não é essa a questão? Fazer
diferente todos os dias? Pois então. Que
se faça o benchmarking. Mas tenho medo que
todos um dia decidam "colar" a idéia
do outro e ninguém mais criar; como ficaremos
no futuro próximo? Todos fazendo benchmarking
e não existindo uma única pessoa para
criar novas idéias a serem copiadas! As idéias
se reciclam. E somente se ousarmos ser diferentes
é que elas surgem e daí boas novas
para todos poderão acontecer.
O importante é não permitir
que sejamos apenas operadores. E sim, tirarmos uns
minutos por dia e perguntar: como eu posso fazer
isso ser diferente?
A resposta? Bem, isso eu não tenho de imediato.
Mas acredito que depende de cada um buscá-la.
A empresa pode sim, oferecer alguns instrumentos,
momentos, onde a criatividade possa ser exercida.
Um líder que esteja aberto às novas
idéias; um curso que venha contribuir para
mudanças; liberdade para exercer melhor nossas
funções. Isso tudo pode contribuir.
Algumas organizações, até culturalmente
podem não ter essa abertura. Mas não
é melhor estarmoscom a consciência
de que tentamos? Correr atrás. Ousar. Expor
as idéias. Fazer acontecer?
O não de hoje pode ser a solução
de amanhã.