A carreira nas suas mãos.
 
04 de Maio de 2006.     
 



Patrícia Bispo

 
Cada vez mais o mercado estimula a competição entre as pessoas e isso não vale apenas para quem está concorrendo a uma vaga através de um tradicional processo de recrutamento e seleção. Esse estímulo também pode ser sentido no dia-a-dia das organizações e isso, em alguns casos, gera até mesmo conflitos. Diante de tantos desafios, para garantir a empregabilidade, alguns profissionais perdem-se no meio do caminho, pois imaginam que administrar a carreira significa apenas investir no aspecto técnico. Com isso, deixam de manter relacionamentos e fazer novos contatos na sua área de atuação. E quando isso acontece, a pessoa deixa de trocar experiências e aprimorar até mesmo suas competências, inclusive as comportamentais que estão sendo tão valorizadas pelas empresas. Para falar com é possível conduzir uma carreira e alcançar o sucesso, o RH.com.br entrevistou Edson Gil, consultor de empresas nas áreas de estratégia empresarial e gerência competitiva. "É muito comum deixarmos que as nossas carreiras sejam conduzidas pelos ventos do mercado, ora calmaria, ora tempestade. Isso não é bom", afirma Edson que também possui experiência na área de desenvolvimento profissional. Se você está pensando em dar um novo rumo à sua carreira, aproveite e confira a entrevista na íntegra. Boa leitura!



RH.COM.BR - No mercado, existem profissionais com ótima qualificação técnica, mas que não conseguem uma boa colocação. Quais as principais ferramentas para manter a empregabilidade em alta?

Edson Gil - Nos últimos anos, a competitividade no mercado de trabalho provocou uma visão equivocada de que o nível de qualificação seria importante para garantir uma boa colocação. Infelizmente, isso não se traduziu na mesma proporção das expectativas das pessoas. Muitos se preocuparam apenas com os aspectos técnicos e deixaram de se envolver, de se relacionar com amigos e colegas. Ou então, deixaram que o tempo esfriasse as amizades e os relacionamentos com aqueles que poderiam, no mínimo, apoiar com alguma referência sobre eles mesmos ou até mesmo proporcionar algum tipo de indicação no futuro. Em todos estes casos as ferramentas mais adequadas ainda seriam o planejamento de carreira e o relacionamento com as pessoas. Se balizarmos através de importantes estudos nos últimos 30 anos, teríamos que o interesse pela produtividade foi ao longo dos anos muito superior ao interesse pelos relacionamentos. Com isso, a competitividade sobrepujou a amizade e os aspectos de interesses surgiram nas rodas de amigos. Aqueles que se preocuparam somente com o seu plano de carreira, apostando apenas no conhecimento técnico, hoje estão mudando seu foco e redirecionando seus perfis.


RH - Das ferramentas que o Sr. citou, qual aquela que mais exige investimento, seja financeiro ou mesmo de dedicação pessoal?

Edson Gil - Tanto o planejamento da carreira quanto os graus de relacionamentos com as pessoas exigem alto grau de dedicação. E não se trata de um sem o outro. Os relacionamentos com outras pessoas podem nos ajudar bastante. Mas a maioria das pessoas apenas pensa em networking quando precisa, esquecendo-se de construir toda uma rede de relacionamentos à sua volta para poder ajudar e ser ajudado. Nunca pode ser interpretado como uma via de mão única, e sim como um processo que deve ser construído, planejado e agradável a todos os envolvidos. Ou seja, manter sempre um alto grau de interesse pelas pessoas que o cercam e manter uma preocupação constante com seus objetivos pessoais e profissionais.


RH - Existe alguma receita ou dica para se chegar ao sucesso profissional?

Edson Gil - Eu diria que sim. Procure gostar de tudo o que você faz. Por pior que seja uma tarefa, um emprego, um chefe, um colega, nunca nada pode ser 100% ruim. Tudo vai depender da forma como você encara cada situação. A minha definição de competência traduz bem isso. É simples, a competência é aquilo que você faz melhor do que outra pessoa em uma determinada situação. Como a situação pode determinar os graus de competências de cada pessoa é preciso observar e estabelecer as competências mais importantes. Para isso ser verdade, um conjunto de definições deve ser sempre trabalhada pelo profissional. O conhecimento, o desenvolvimento de habilidades, o incremento das atitudes, mas, sobretudo tem que ter interesse em fazer. E é exatamente este atributo de vontade que acredito que faz a grande diferença. Por isso, sempre aconselho: busque gostar de tudo o que você faz, observe e veja o que pode ser extraído de bom em cada situação, aprenda com isso e valorize o que aprendeu.


RH - Na sua opinião, qual o melhor conceito para se descrever uma carreira de sucesso?

Edson Gil - É aquela cujo profissional aprendeu como lidar com situações, pessoas e metas. Lidar com situações pode ensinar a enfrentar maiores obstáculos, pressões e frustrações. Isso vai ajudar o profissional a planejar melhor sua carreira e a ter discernimento sobre as suas expectativas. Lidar com pessoas vai ensinar a avaliar as expectativas de um grupo ou de um indivíduo, ajustando os aspectos de motivação, liderança e conflitos que surgirem ao longo da carreira. E lidar com as metas significa aprender com esta velocidade e competição que nos são impostas pelo mundo moderno. E entender que nem sempre seus objetivos poderão ser alcançados por precisar atender expectativas de outros e assim lidar com um emaranhado de emoções de forma muito mais positiva.


RH - Quais são os passos fundamentais que o profissional deve tomar para administrar a própria carreira?

Edson Gil - Planejar e pensar, sempre. É muito comum deixarmos que as nossas carreiras sejam conduzidas pelos ventos do mercado, ora calmaria, ora tempestade. Isso não é bom para ninguém. É imprescindível planejar e pensar, sempre ajustando cada situação ao seu planejamento e vice-versa. Assim o profissional poderá encontrar meios e formas de driblar e atenuar as adversidades que possam aparecer em seu caminho, aprender com elas e superá-las no momento certo. Temos deixado de planejar efetivamente uma atividade de rotina e não prestarmos a devida atenção a ela. Com isso, corremos sempre um sério risco de que alguma coisa poderá proporcionar um retrabalho, prejudicando nosso tempo e criando desconforto emocional. E o pior é que isso pode se refletir ao longo do dia. Por isso aconselho: planeje sempre.


RH - É realmente possível administrar o futuro profissional diante de um mercado restrito de boas oportunidades?

Edson Gil
- Mas é claro que sim. Conheço diversos profissionais que criaram seus próprios caminhos como empreendedores ou que ajudaram a empreendedores a revolucionar seus negócios e mercados. Por isso, sempre digo que é importante aprender a planejar e pensar para poder quebrar alguns paradigmas. Um deles é que as melhores oportunidades estão apenas nas grandes empresas ou nos melhores cargos. Veja a área de marketing, por exemplo, tem sofrido uma série de restrições nas grandes empresas à medida que seus resultados são cobrados com mais rigor em termos financeiros. A eterna luta entre marketing e finanças acabou com as novas formas de fazer negócios. E infelizmente o marketing tradicional perdeu terreno nas grandes empresas, mas ainda possui um campo imenso em empresas que todo seu marketing está montado de forma insipiente. Este pode ser um importante caminho para jovens empreendedores e que estejam dispostos a desbravar mais um pouco este mercado.


RH - O que mais atrapalha as pessoas quando elas desejam alcançar o "topo" da carreira?

Edson Gil - O medo de errar. Ninguém está mais sozinho no mundo do que aquele que tem de tomar uma decisão importante. Por mais dados que se cerque. Por mais opiniões que escute. Por mais conselhos que receba. Na hora de decidir recai sobre seus ombros todo o peso da responsabilidade. E por isso mesmo, sempre se tem o medo de errar. Todos sabem quanto pode lhes custar uma decisão errada. Pode significar deixar ir por água abaixo tudo o que foi construído a duras penas. Pensando nisso, tenho ajudado uma série de executivos de empresas de todo o país através de aconselhamentos para as suas decisões. E tem funcionado muito bem. Mas é impressionante ver pessoas bem estruturadas emocionalmente precisando de uma opinião de um estrategista como um aval sobre o que pensa. Na maioria das vezes, este estrategista precisa estar de fora de seu círculo de amizade ou de relacionamento direto, até pela confidencialidade que cada questão envolve.


RH - As empresas têm participação no sucesso dos seus profissionais?

Edson Gil - Sempre acreditei que sim. Muitas empresas têm uma importância tão grande na formação de um profissional que seus traços culturais e comportamentais ainda se mantêm mesmo após muitos anos de sua saída. Isso é explicado pela forma que se aprendeu a obter resultados, e sempre será remontado seu comportamento nesta direção quando as situações forem parecidas. Infelizmente, o contrário também é verdadeiro. Muitos profissionais ainda mantêm, vivos em suas memórias, os vícios obtidos com as empresas que trabalharam anteriormente e por isso mesmo tendem a se sentir desmotivados ou frustrados por não conseguirem se adaptar à nova cultura na velocidade que gostariam. Por isso mesmo que aconselho sempre aos profissionais que oriento que planejem suas carreiras e pensem sobre as situações que vivenciam a cada dia. Sempre será possível encontrar algo que possa aprender e assim tornar-se cada vez melhor.


RH - Dentro das organizações, como o profissional de RH pode ajudar as pessoas a se sentirem realizadas profissionalmente?

Edson Gil
- Atribuindo os valores verdadeiros a cada atividade e função. E quando falo em valores, não estou falando de dinheiro e sim em outras formas de manter o contrato psicológico formado entre a empresa e o profissional, enaltecendo aspectos significativos para cada um. Por conta disso, sempre acreditei que as lideranças devem ser situacionais, mas contextualizadas dentro de cada situação. Não se trata de apenas estabelecer formas de tratar e falar, mas de estabelecer valores significativos em cada comportamento diante de cada pessoa. Seja através de um elogio, uma instrução, um curso, ou qualquer outra coisa. Mas, o mais importante é manter sempre um planejamento ativo em cada situação, avaliando valores e entendendo as expectativas envolvidas. Desta forma, e por experiência, será mais objetivo na busca de seus resultados como gestor de pessoas.






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