Patrícia Bispo
|
|
Cada vez
mais o mercado estimula a competição
entre as pessoas e isso não vale apenas
para quem está concorrendo a uma vaga
através de um tradicional processo
de recrutamento e seleção. Esse
estímulo também pode ser sentido
no dia-a-dia das organizações
e isso, em alguns casos, gera até mesmo
conflitos. Diante de tantos desafios, para
garantir a empregabilidade, alguns profissionais
perdem-se no meio do caminho, pois imaginam
que administrar a carreira significa apenas
investir no aspecto técnico. Com isso,
deixam de manter relacionamentos e fazer novos
contatos na sua área de atuação.
E quando isso acontece, a pessoa deixa de
trocar experiências e aprimorar até
mesmo suas competências, inclusive as
comportamentais que estão sendo tão
valorizadas pelas empresas. Para falar com
é possível conduzir uma carreira
e alcançar o sucesso, o RH.com.br entrevistou
Edson Gil, consultor de empresas nas áreas
de estratégia empresarial e gerência
competitiva. "É muito comum deixarmos
que as nossas carreiras sejam conduzidas pelos
ventos do mercado, ora calmaria, ora tempestade.
Isso não é bom", afirma
Edson que também possui experiência
na área de desenvolvimento profissional.
Se você está pensando em dar
um novo rumo à sua carreira, aproveite
e confira a entrevista na íntegra.
Boa leitura! |
RH.COM.BR - No mercado, existem
profissionais com ótima qualificação
técnica, mas que não conseguem uma
boa colocação. Quais as principais
ferramentas para manter a empregabilidade em alta?
Edson Gil - Nos últimos
anos, a competitividade no mercado de trabalho provocou
uma visão equivocada de que o nível
de qualificação seria importante para
garantir uma boa colocação. Infelizmente,
isso não se traduziu na mesma proporção
das expectativas das pessoas. Muitos se preocuparam
apenas com os aspectos técnicos e deixaram
de se envolver, de se relacionar com amigos e colegas.
Ou então, deixaram que o tempo esfriasse
as amizades e os relacionamentos com aqueles que
poderiam, no mínimo, apoiar com alguma referência
sobre eles mesmos ou até mesmo proporcionar
algum tipo de indicação no futuro.
Em todos estes casos as ferramentas mais adequadas
ainda seriam o planejamento de carreira e o relacionamento
com as pessoas. Se balizarmos através de
importantes estudos nos últimos 30 anos,
teríamos que o interesse pela produtividade
foi ao longo dos anos muito superior ao interesse
pelos relacionamentos. Com isso, a competitividade
sobrepujou a amizade e os aspectos de interesses
surgiram nas rodas de amigos. Aqueles que se preocuparam
somente com o seu plano de carreira, apostando apenas
no conhecimento técnico, hoje estão
mudando seu foco e redirecionando seus perfis.
RH - Das ferramentas que o Sr.
citou, qual aquela que mais exige investimento,
seja financeiro ou mesmo de dedicação
pessoal?
Edson Gil - Tanto o planejamento
da carreira quanto os graus de relacionamentos com
as pessoas exigem alto grau de dedicação.
E não se trata de um sem o outro. Os relacionamentos
com outras pessoas podem nos ajudar bastante. Mas
a maioria das pessoas apenas pensa em networking
quando precisa, esquecendo-se de construir toda
uma rede de relacionamentos à sua volta para
poder ajudar e ser ajudado. Nunca pode ser interpretado
como uma via de mão única, e sim como
um processo que deve ser construído, planejado
e agradável a todos os envolvidos. Ou seja,
manter sempre um alto grau de interesse pelas pessoas
que o cercam e manter uma preocupação
constante com seus objetivos pessoais e profissionais.
RH - Existe alguma receita ou dica
para se chegar ao sucesso profissional?
Edson Gil - Eu diria que sim. Procure
gostar de tudo o que você faz. Por pior que
seja uma tarefa, um emprego, um chefe, um colega,
nunca nada pode ser 100% ruim. Tudo vai depender
da forma como você encara cada situação.
A minha definição de competência
traduz bem isso. É simples, a competência
é aquilo que você faz melhor do que
outra pessoa em uma determinada situação.
Como a situação pode determinar os
graus de competências de cada pessoa é
preciso observar e estabelecer as competências
mais importantes. Para isso ser verdade, um conjunto
de definições deve ser sempre trabalhada
pelo profissional. O conhecimento, o desenvolvimento
de habilidades, o incremento das atitudes, mas,
sobretudo tem que ter interesse em fazer. E é
exatamente este atributo de vontade que acredito
que faz a grande diferença. Por isso, sempre
aconselho: busque gostar de tudo o que você
faz, observe e veja o que pode ser extraído
de bom em cada situação, aprenda com
isso e valorize o que aprendeu.
RH - Na sua opinião, qual
o melhor conceito para se descrever uma carreira
de sucesso?
Edson Gil - É aquela cujo
profissional aprendeu como lidar com situações,
pessoas e metas. Lidar com situações
pode ensinar a enfrentar maiores obstáculos,
pressões e frustrações. Isso
vai ajudar o profissional a planejar melhor sua
carreira e a ter discernimento sobre as suas expectativas.
Lidar com pessoas vai ensinar a avaliar as expectativas
de um grupo ou de um indivíduo, ajustando
os aspectos de motivação, liderança
e conflitos que surgirem ao longo da carreira. E
lidar com as metas significa aprender com esta velocidade
e competição que nos são impostas
pelo mundo moderno. E entender que nem sempre seus
objetivos poderão ser alcançados por
precisar atender expectativas de outros e assim
lidar com um emaranhado de emoções
de forma muito mais positiva.
RH - Quais são os passos
fundamentais que o profissional deve tomar para
administrar a própria carreira?
Edson Gil - Planejar e pensar,
sempre. É muito comum deixarmos que as nossas
carreiras sejam conduzidas pelos ventos do mercado,
ora calmaria, ora tempestade. Isso não é
bom para ninguém. É imprescindível
planejar e pensar, sempre ajustando cada situação
ao seu planejamento e vice-versa. Assim o profissional
poderá encontrar meios e formas de driblar
e atenuar as adversidades que possam aparecer em
seu caminho, aprender com elas e superá-las
no momento certo. Temos deixado de planejar efetivamente
uma atividade de rotina e não prestarmos
a devida atenção a ela. Com isso,
corremos sempre um sério risco de que alguma
coisa poderá proporcionar um retrabalho,
prejudicando nosso tempo e criando desconforto emocional.
E o pior é que isso pode se refletir ao longo
do dia. Por isso aconselho: planeje sempre.
RH - É realmente possível
administrar o futuro profissional diante de um mercado
restrito de boas oportunidades?
Edson Gil - Mas é claro que sim.
Conheço diversos profissionais que criaram
seus próprios caminhos como empreendedores
ou que ajudaram a empreendedores a revolucionar
seus negócios e mercados. Por isso, sempre
digo que é importante aprender a planejar
e pensar para poder quebrar alguns paradigmas. Um
deles é que as melhores oportunidades estão
apenas nas grandes empresas ou nos melhores cargos.
Veja a área de marketing, por exemplo, tem
sofrido uma série de restrições
nas grandes empresas à medida que seus resultados
são cobrados com mais rigor em termos financeiros.
A eterna luta entre marketing e finanças
acabou com as novas formas de fazer negócios.
E infelizmente o marketing tradicional perdeu terreno
nas grandes empresas, mas ainda possui um campo
imenso em empresas que todo seu marketing está
montado de forma insipiente. Este pode ser um importante
caminho para jovens empreendedores e que estejam
dispostos a desbravar mais um pouco este mercado.
RH - O que mais atrapalha as pessoas
quando elas desejam alcançar o "topo"
da carreira?
Edson Gil - O medo de errar. Ninguém
está mais sozinho no mundo do que aquele
que tem de tomar uma decisão importante.
Por mais dados que se cerque. Por mais opiniões
que escute. Por mais conselhos que receba. Na hora
de decidir recai sobre seus ombros todo o peso da
responsabilidade. E por isso mesmo, sempre se tem
o medo de errar. Todos sabem quanto pode lhes custar
uma decisão errada. Pode significar deixar
ir por água abaixo tudo o que foi construído
a duras penas. Pensando nisso, tenho ajudado uma
série de executivos de empresas de todo o
país através de aconselhamentos para
as suas decisões. E tem funcionado muito
bem. Mas é impressionante ver pessoas bem
estruturadas emocionalmente precisando de uma opinião
de um estrategista como um aval sobre o que pensa.
Na maioria das vezes, este estrategista precisa
estar de fora de seu círculo de amizade ou
de relacionamento direto, até pela confidencialidade
que cada questão envolve.
RH - As empresas têm participação
no sucesso dos seus profissionais?
Edson Gil - Sempre acreditei que
sim. Muitas empresas têm uma importância
tão grande na formação de um
profissional que seus traços culturais e
comportamentais ainda se mantêm mesmo após
muitos anos de sua saída. Isso é explicado
pela forma que se aprendeu a obter resultados, e
sempre será remontado seu comportamento nesta
direção quando as situações
forem parecidas. Infelizmente, o contrário
também é verdadeiro. Muitos profissionais
ainda mantêm, vivos em suas memórias,
os vícios obtidos com as empresas que trabalharam
anteriormente e por isso mesmo tendem a se sentir
desmotivados ou frustrados por não conseguirem
se adaptar à nova cultura na velocidade que
gostariam. Por isso mesmo que aconselho sempre aos
profissionais que oriento que planejem suas carreiras
e pensem sobre as situações que vivenciam
a cada dia. Sempre será possível encontrar
algo que possa aprender e assim tornar-se cada vez
melhor.
RH - Dentro das organizações,
como o profissional de RH pode ajudar as pessoas
a se sentirem realizadas profissionalmente?
Edson Gil - Atribuindo os valores verdadeiros
a cada atividade e função. E quando
falo em valores, não estou falando de dinheiro
e sim em outras formas de manter o contrato psicológico
formado entre a empresa e o profissional, enaltecendo
aspectos significativos para cada um. Por conta
disso, sempre acreditei que as lideranças
devem ser situacionais, mas contextualizadas dentro
de cada situação. Não se trata
de apenas estabelecer formas de tratar e falar,
mas de estabelecer valores significativos em cada
comportamento diante de cada pessoa. Seja através
de um elogio, uma instrução, um curso,
ou qualquer outra coisa. Mas, o mais importante
é manter sempre um planejamento ativo em
cada situação, avaliando valores e
entendendo as expectativas envolvidas. Desta forma,
e por experiência, será mais objetivo
na busca de seus resultados como gestor de pessoas.