O líder tem que ser uma unanimidade?
 
7 de Julho de 2006.     
 



Robert Lobato


É muito conhecida a frase do genial Nelson Rodrigues que diz: "toda unanimidade é burra". Não obstante a frase ser uma provocação do velho dramaturgo, uma vez que se todo mundo concordar com ela ficará comprovado que toda unanimidade é de fato burrice, ela nos submete a uma análise sobre como são vistos alguns líderes pelos seus liderados.

Ao contrário do autor de "A Noiva de Copacabana", não acho que toda unanimidade seja burra, mas "perigosa". Assim, um líder não pode esperar que todos os seus colaboradores tenham um conceito favorável a seu respeito sob pena da sua liderança ficar vulnerável a situações de riscos. De que forma isso pode acontecer?

Imaginemos uma organização qualquer, onde o líder é uma pessoa democrática, carismática, motivadora, e que todos os liderados sempre acompanham as suas orientações e por isso mesmo há anos ele está no comando da equipe. É um quadro que parece favorável ao líder, não é mesmo?

Mas, continuemos a fazer um exercício imaginário e supomos agora surgir um novo colaborador na equipe que passa a descordar ou mesmo questionar a forma com o líder comanda a equipe e, pior, faz com que alguns membros concordem com seus questionamentos. Como reagirá o nosso velho líder?

Percebam que o que era uma unanimidade há pouco tempo, inesperadamente passa a ser algo questionado, controvertido. Se o líder possuir um equilíbrio emocional adequado com certeza conseguirá superar a nova circunstância que lhe é desfavorável, do contrário sofrerá bastante por perder o controle (mesmo que parcial) sobre a sua equipe.
Dessa forma, penso ser salutar que líder não almeje ser uma unanimidade para a sua equipe, a ponto de achar que nunca será contestado por algum membro que a integre. Um líder de verdade deve está preparado para situações adversas, inclusive quando essa situação vier de quem menos pensava, pois às vezes somos surpreendidos por alguém no qual se achava ser um aliado incondicional.

Outro perigo que o líder corre com a tal unanimidade diz respeito à acomodação que a mesma pode levá-lo. Ou seja, por achar que estar "tudo bem", "tudo legal", o líder pode cair na armadilha da acomodação a ponto de não perceber detalhes que no futuro podem vir a ser grandes problemas.

Não é raro se ver uma empresa, por exemplo, que era líder de vendas no mercado e de repente "crau!"... Quebra, desaparece do mapa. Isso acontece porque essa empresa, em determinado momento, transformou-se em uma unanimidade para o consumidor que a impossibilitou de observar os perigos da concorrência e a possibilidade desse mesmo consumidor procurar uma outra opção.

Esse fenômeno também ocorre com as pessoas. Quem não conhece alguma história de alguém que era poderoso, rico e influente e de uma hora pra outra cai em desgraça e abandono? Ou ainda de um líder muito querido e respeitado que perde todo o seu reconhecimento num piscar de olhos? Com certeza a gente já viu casos assim.
Outra questão fundamental que não podemos esquecer é que a unanimidade pode trazer uma patologia mental conhecida como paranóia. Pessoas (ou líder) com muito poder sobre as outras podem desenvolver um comportamento onde todos passam a serem vistos como "perseguidores" ou "conspiradores" do seu poder. Esse comportamento acaba fazendo com que os amigos afastem-se do líder, a ponto de um dia esse líder olhar pra um lado e pra outro e não ver mais ninguém com quem possa contar. É o fim melancólico.

Por isso, afirmo que toda unanimidade é perigosa e não burra. Penso que há coisas positivas que devem ser unanimidade. O amor, a paz, a natureza devem ser uma unanimidade. Ninguém em sã consciência pode achar que essas coisas devam desaparecer ou que não mereçam respeito e proteção da nossa parte.

Quanto ao líder, ele não deve ficar procurando ser uma unanimidade no seu local de trabalho, posto que a unanimidade pode ser infrutífera e inibidora da criatividade. O melhor ambiente para o líder e aquela onde há espaço para o contraditório, para a divergência e para o surgimento de novas lideranças.

Estou convicto que o maior orgulho de um líder de verdade é olhar pra trás e observar que contribuiu para a formação de vários discípulos, mesmo que entre esses discípulos tenha algum que reformulou ou aprimorou as idéias e os ensinamentos do seu guru.




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