Robert Lobato
É muito conhecida a frase do genial Nelson
Rodrigues que diz: "toda unanimidade é
burra". Não obstante a frase ser uma
provocação do velho dramaturgo, uma
vez que se todo mundo concordar com ela ficará
comprovado que toda unanimidade é de fato
burrice, ela nos submete a uma análise sobre
como são vistos alguns líderes pelos
seus liderados.
Ao contrário do autor de "A Noiva de
Copacabana", não acho que toda unanimidade
seja burra, mas "perigosa". Assim, um
líder não pode esperar que todos os
seus colaboradores tenham um conceito favorável
a seu respeito sob pena da sua liderança
ficar vulnerável a situações
de riscos. De que forma isso pode acontecer?
Imaginemos uma organização qualquer,
onde o líder é uma pessoa democrática,
carismática, motivadora, e que todos os liderados
sempre acompanham as suas orientações
e por isso mesmo há anos ele está
no comando da equipe. É um quadro que parece
favorável ao líder, não é
mesmo?
Mas, continuemos a fazer um exercício imaginário
e supomos agora surgir um novo colaborador na equipe
que passa a descordar ou mesmo questionar a forma
com o líder comanda a equipe e, pior, faz
com que alguns membros concordem com seus questionamentos.
Como reagirá o nosso velho líder?
Percebam que o que era uma unanimidade há
pouco tempo, inesperadamente passa a ser algo questionado,
controvertido. Se o líder possuir um equilíbrio
emocional adequado com certeza conseguirá
superar a nova circunstância que lhe é
desfavorável, do contrário sofrerá
bastante por perder o controle (mesmo que parcial)
sobre a sua equipe.
Dessa forma, penso ser salutar que líder
não almeje ser uma unanimidade para a sua
equipe, a ponto de achar que nunca será contestado
por algum membro que a integre. Um líder
de verdade deve está preparado para situações
adversas, inclusive quando essa situação
vier de quem menos pensava, pois às vezes
somos surpreendidos por alguém no qual se
achava ser um aliado incondicional.
Outro perigo que o líder corre com a tal
unanimidade diz respeito à acomodação
que a mesma pode levá-lo. Ou seja, por achar
que estar "tudo bem", "tudo legal",
o líder pode cair na armadilha da acomodação
a ponto de não perceber detalhes que no futuro
podem vir a ser grandes problemas.
Não é raro se ver uma empresa, por
exemplo, que era líder de vendas no mercado
e de repente "crau!"... Quebra, desaparece
do mapa. Isso acontece porque essa empresa, em determinado
momento, transformou-se em uma unanimidade para
o consumidor que a impossibilitou de observar os
perigos da concorrência e a possibilidade
desse mesmo consumidor procurar uma outra opção.
Esse fenômeno também ocorre com as
pessoas. Quem não conhece alguma história
de alguém que era poderoso, rico e influente
e de uma hora pra outra cai em desgraça e
abandono? Ou ainda de um líder muito querido
e respeitado que perde todo o seu reconhecimento
num piscar de olhos? Com certeza a gente já
viu casos assim.
Outra questão fundamental que não
podemos esquecer é que a unanimidade pode
trazer uma patologia mental conhecida como paranóia.
Pessoas (ou líder) com muito poder sobre
as outras podem desenvolver um comportamento onde
todos passam a serem vistos como "perseguidores"
ou "conspiradores" do seu poder. Esse
comportamento acaba fazendo com que os amigos afastem-se
do líder, a ponto de um dia esse líder
olhar pra um lado e pra outro e não ver mais
ninguém com quem possa contar. É o
fim melancólico.
Por isso, afirmo que toda unanimidade é perigosa
e não burra. Penso que há coisas positivas
que devem ser unanimidade. O amor, a paz, a natureza
devem ser uma unanimidade. Ninguém em sã
consciência pode achar que essas coisas devam
desaparecer ou que não mereçam respeito
e proteção da nossa parte.
Quanto ao líder, ele não deve ficar
procurando ser uma unanimidade no seu local de trabalho,
posto que a unanimidade pode ser infrutífera
e inibidora da criatividade. O melhor ambiente para
o líder e aquela onde há espaço
para o contraditório, para a divergência
e para o surgimento de novas lideranças.
Estou convicto que o maior orgulho de um líder
de verdade é olhar pra trás e observar
que contribuiu para a formação de
vários discípulos, mesmo que entre
esses discípulos tenha algum que reformulou
ou aprimorou as idéias e os ensinamentos
do seu guru.