Tentativas: sem medo de errar
 
12 de Dezembro de 2006.     
 


Por Patrícia Bispo

 
"Quem nunca errou, que atire a primeira pedra". Bem que essa adaptação à passagem bíblica, quando Jesus protegeu Maria Madalena, poderia ser usada como fonte de reflexão para empresas que buscam superar seus limites, mas que ao mesmo esquecem que errar é humano. É através de tentativas que o profissional pode aperfeiçoar seu trabalho, desenvolver o potencial criativo e até mesmo apresentar idéias que façam a diferença para o negócio. Enquanto há empresas que permitem que seus colaboradores tentem, arrisquem e até mesmo procura estimulá-los a serem inovadores, existem organizações onde cometer erros virou sinônimo de punição ou demissão. Mas, será que existe o momento propício para se cometer erros? Até que ponto as empresas devem aceitar as falhas dos seus funcionários? Quem responde essas e outras questões é Gilclér Regina, consultor organizacional e palestrante motivacional. Em entrevista concedida ao RH.com.br, ele afirma que o erro deveria fazer parte do bom vocabulário empresarial, porque é ele que nos ensina. "Quando se tem a possibilidade do erro, o acerto vem de uma maneira mais fácil e ao mesmo tempo mais sólida", afirma. Esses são apenas alguns pontos abordados pelo consultor. Confira a entrevista na íntegra e boa leitura.



RH.com.br - Alguns especialistas defendem que para o profissional se sentir motivado no trabalho, ele precisa ter espaço para mostrar seu potencial, sua criatividade. O Sr. concorda com esse pensamento?

Gilclér Regina - Em parte sim, porque o ambiente é muito importante no desenvolvimento de um trabalho e a motivação por si só encontra algo acolhedor, que propicia o aproveitamento de novas idéias. É claro que ainda existem alguns "chefossauros", que acreditam que só eles pensam e os outros têm mais é que fazer o que eles desejam, isto é, estender o tapete para ele passar. Mas, na realidade este espécime já está em extinção porque o mundo moderno exige participação, comprometimento de equipes tanto em relacionamento como em tecnologias e para tanto é preciso ouvir as bases, estimular a participação e a criatividade para que as coisas efetivamente aconteçam. O suporte de uma direção está no comprometimento das equipes. Eu disse que concordo em parte, porque existem outras situações onde o profissional é motivado mesmo num mundo de pressão por resultados e mesmo onde não há tanto espaço para se mostrar e isso o motiva ainda mais porque foi desafiado.


RH - No dia-a-dia, também observamos que algumas pessoas têm potencial, mas ao mesmo tempo permanecem no anonimato. Por que esses profissionais preferem ficar nos bastidores?

Gilclér Regina - É verdade, existem muitas pessoas que têm uma capacidade incrível de trabalho e ficam escondidas atrás das cortinas. Sinto que em muitos casos o que pega mais forte é o perfil da pessoa, a sua personalidade que fala mais alto. Mas veja, se todos ficarem na berlinda, nas luzes da ribalta, no alto do pódio, o que será do trabalho? Se um time é formado somente por estrelas, quem vai carregar o piano? Mesmo assim, enxergo também que tem muita gente que desperdiça seu talento ficando escondida por medo de alguma coisa e na realidade esse medo engessa as suas atitudes, o seu comportamento e anula as suas possibilidades.


RH - Por que as pessoas têm medo de errar no ambiente de trabalho?

Gilclér Regina - Acho que as pessoas têm muito medo de errar porque já traz do berço familiar um histórico negativo. As pessoas sabem sempre o que não querem, fazem até lista como não querer dever em banco, não ter doença, mas não sabem o que quer de verdade, o seu desejo. Uma criança com oito anos de idade já recebeu uma carga aproximada de cem mil vezes a palavra "não". E esse não faça isso, não faça aquilo se perpetua quando entra no mercado de trabalho e muitos carregam esse fardo por toda a vida. O que essas pessoas não entenderam é que coragem não é não ter medo, ou seja, é ir em frente, apesar do medo. Limitações todos nós temos, mas temos uma coisa mais forte dentro de nosso coração que é o sentimento de poder realizar mais, fazer mais, pensar positivo, superar os obstáculos que a vida nos oferece sempre e o gosto pela vitória acaba tendo um sabor muito mais especial. O problema é que nem todos enxergam essa possibilidade pessoal.


RH - Esse medo fortifica-se mais por causa da cultura organizacional?

Gilclér Regina - Não tenho dúvida disto. A cultura empresarial ainda é enraizada na figura do chefe, do poder e isso é uma lástima. Não é à toa que quando se ouve o ruído do carro do chefe no pátio da empresa, o "corneteiro" que vai avisar à galera da chegada dele, anuncia aos berros: "O homem" ou "A mulher". Ou seja, chefe não tem nem nome. E quando ele entra, todo mundo está trabalhando "direitinho". E esse medo da hierarquia acaba influenciando diretamente no desempenho do trabalho e muita gente acaba não sabendo conviver com isso e esse medo acaba tendo uma proporção muito grande engessando a criatividade do funcionário, do profissional e sua auto-estima vai lá embaixo, em níveis insustentáveis. É quando ele toma a decisão de sair por qualquer coisa ou mesmo de se anular e ficar garantindo-se, fazendo o mínimo possível. O que me deixa pasmo é a empresa de hoje, ciente disso, ficar perdendo talentos e por conseqüência atingindo resultados medíocres.


RH - Cometer erros não é um dos caminhos para o aprendizado?

Gilclér Regina - Para acertar é preciso antes de qualquer coisa tentar e para tentar sempre existirá o risco de errar. Quem não tenta, nem acerta e nem erra. Portanto, o erro deveria fazer parte do nosso bom vocabulário empresarial porque é ele que nos ensina. É verdade que buscamos sempre o amor, mas a dor ensina mais que o amor. Fernando Parrado, um dos dezesseis sobreviventes do acidente aéreo dos Andes, que comeram carne humana para sobreviver, disse algum tempo atrás que todos eles, sem distinção, estão se dando bem na vida profissional, financeira e familiar. A dor ensinou. Na empresa, o erro fortalece o acerto. Mas quando o medo de errar é mais forte, é igual ao futebol quando o atleta vai chutar um pênalti. As traves encolhem-se, o goleiro aumenta de tamanho e a bola parece feita de chumbo.


RH - O erro é realmente necessário para o desenvolvimento do profissional?

Gilclér Regina - É claro, assim ninguém mente para ninguém porque neste mundo não há perfeição, somente a sua busca. Quando se tem a possibilidade do erro, o acerto vem de uma maneira mais fácil e ao mesmo tempo mais sólida. É como um casal que consegue uma convivência pacífica e amorosa por muitos e muitos anos. Se você perguntar a eles se ficaram o tempo todo se olhando e dizendo se amar, vão rir de você, porque no dia-a-dia, foi um universo de concessões, erros e acertos e isso os fortaleceram. Não tenho dúvida que na empresa é a mesma coisa. Ninguém aqui está falando que o grande negócio é errar, apenas que o erro fortalece o acerto e é necessário mesmo para o desenvolvimento. Caso contrário, quando surgir um erro grave, ninguém estará preparado para repará-lo.


RH - Até que ponto as empresas devem tolerar os erros de um colaborador?

Gilclér Regina - Neste caso, é como alguém te enganar. Quando alguém te engana a primeira vez, a culpa é dele, mas quando te engana a segunda vez a culpa é sua. A empresa tem que treinar e o colaborador tem que aprender. O momento de errar é no treinamento para que erros não aconteçam no dia-a-dia. É claro que deverá ocorrer uma análise se o erro foi muito grave ou mesmo infantil, numa situação que requeria maior responsabilidade. Cada caso é um caso. A questão não é o erro em si, mas a organização que acaba tendo um clima de terror e o pavor de errar faz parte do cotidiano. E neste caso, tenho certeza que os erros são comuns e recorrentes.


RH - De que forma a empresa pode auxiliar o profissional a sair de dentro da ostra e não ter medo de errar?

Gilclér Regina - Ah, neste caso não tenho a menor dúvida que é o treinamento. A empresa tem que criar um programa interno de motivação com o desenvolvimento de palestras para a equipe trabalhe a questão da motivação, da atitude, do comportamento, das possibilidades, que mostre que a vida é feita de 1% de inspiração, de 999% de transpiração, mas para fechar essa conta é 100% de atitude. É aí que entra o pessoal de RH que é preparado para isso, interagindo com os setores da empresam, articulando e trabalhando o fator psicológico de cada um, identificando as necessidades do grupo e do indivíduo e criando um programa especial para suprir as deficiências e fortalecer o que há de bom. Veja, 85% dos líderes hoje apontam a falta de motivação como o maior desafio para se atingir objetivos e é preciso aceitar as diferenças individuais e ajudar a desenvolver o potencial de cada um.


RH - E quanto à participação da área de RH, que ações práticas podem ser tomadas para que as pessoas aprendam que o risco faz parte do desenvolvimento?

Gilclér Regina - O RH da empresa é o elo entre os setores, as estratégias de ação da empresa e os recursos humanos que a empresa dispõe para atingir os resultados. Enxergo aí que as empresas deveriam valorizar mais a área de RH, pois são os aplicadores das técnicas que identificam a possibilidade de melhorar o processo produtivo do trabalho, despertando o potencial dos seus talentos e em conformidade com a tecnologia que a empresa tem. O RH é fundamental para buscar recursos, novas formas, um perfil novo de trabalho, pesquisando inclusive fora da empresa o que pode trazer para dentro e dar força aos seus talentos e fazer com que esses tenham um ambiente de comprometimento com seus departamentos e com a empresa como um todo, seja em conhecimento, ou seja, em relacionamento.


RH - Qual o papel do líder diante de um profissional que cometeu um determinado erro?

Gilclér Regina - Se uma pessoa está na empresa há mais de um ano, passou por todos os treinamentos e não deu certo, é uma incoerência mantê-la. Se você demitir, neste caso você estará ajudando três situações: o demitido que buscará um espaço em outra empresa; uma outra pessoa que ocupará a vaga seja da mesma empresa ou vindo de fora e, por último, a própria empresa que enxergará aí uma nova etapa e oportunidade de acertar um novo talento ao seu quadro, o que poderá proporcionar melhores resultados.Veja, o líder é o grande treinador, aquele que incentiva as pessoas aos grandes resultados e para isso, é preciso trilhar um caminho. Erros acontecem, mas no geral cada caso é um caso.


RH - A punição deve existir?

Gilclér Regina - Não vou dizer que não se possa punir, é evidente que poderão existir casos onde a punição também fará parte do jogo. Mas na grande maioria dos casos, não vejo a punição como a melhor alternativa. É aquele caso que já citei de alguém te enganar pela primeira e pela segunda vez. Chega uma hora que o culpado não é a instituição e sim a pessoa, e neste caso o líder tem que tomar uma posição. Mas o melhor caminho ainda é o do treinamento. O profissional que errou foi treinado? Teve um ambiente propício? O momento de errar é no treinamento. Já pensou se os pilotos não treinassem nos simuladores? Quem teria coragem de voar?





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