Por Patrícia Bispo
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"Quem
nunca errou, que atire a primeira pedra".
Bem que essa adaptação à
passagem bíblica, quando Jesus protegeu
Maria Madalena, poderia ser usada como fonte
de reflexão para empresas que buscam
superar seus limites, mas que ao mesmo esquecem
que errar é humano. É através
de tentativas que o profissional pode aperfeiçoar
seu trabalho, desenvolver o potencial criativo
e até mesmo apresentar idéias
que façam a diferença para o
negócio. Enquanto há empresas
que permitem que seus colaboradores tentem,
arrisquem e até mesmo procura estimulá-los
a serem inovadores, existem organizações
onde cometer erros virou sinônimo de
punição ou demissão.
Mas, será que existe o momento propício
para se cometer erros? Até que ponto
as empresas devem aceitar as falhas dos seus
funcionários? Quem responde essas e
outras questões é Gilclér
Regina, consultor organizacional e palestrante
motivacional. Em entrevista concedida ao RH.com.br,
ele afirma que o erro deveria fazer parte
do bom vocabulário empresarial, porque
é ele que nos ensina. "Quando
se tem a possibilidade do erro, o acerto vem
de uma maneira mais fácil e ao mesmo
tempo mais sólida", afirma. Esses
são apenas alguns pontos abordados
pelo consultor. Confira a entrevista na íntegra
e boa leitura. |
RH.com.br - Alguns especialistas defendem
que para o profissional se sentir motivado no trabalho,
ele precisa ter espaço para mostrar seu potencial,
sua criatividade. O Sr. concorda com esse pensamento?
Gilclér Regina - Em parte
sim, porque o ambiente é muito importante
no desenvolvimento de um trabalho e a motivação
por si só encontra algo acolhedor, que propicia
o aproveitamento de novas idéias. É
claro que ainda existem alguns "chefossauros",
que acreditam que só eles pensam e os outros
têm mais é que fazer o que eles desejam,
isto é, estender o tapete para ele passar.
Mas, na realidade este espécime já
está em extinção porque o mundo
moderno exige participação, comprometimento
de equipes tanto em relacionamento como em tecnologias
e para tanto é preciso ouvir as bases, estimular
a participação e a criatividade para
que as coisas efetivamente aconteçam. O suporte
de uma direção está no comprometimento
das equipes. Eu disse que concordo em parte, porque
existem outras situações onde o profissional
é motivado mesmo num mundo de pressão
por resultados e mesmo onde não há
tanto espaço para se mostrar e isso o motiva
ainda mais porque foi desafiado.
RH - No dia-a-dia, também observamos
que algumas pessoas têm potencial, mas ao
mesmo tempo permanecem no anonimato. Por que esses
profissionais preferem ficar nos bastidores?
Gilclér Regina - É
verdade, existem muitas pessoas que têm uma
capacidade incrível de trabalho e ficam escondidas
atrás das cortinas. Sinto que em muitos casos
o que pega mais forte é o perfil da pessoa,
a sua personalidade que fala mais alto. Mas veja,
se todos ficarem na berlinda, nas luzes da ribalta,
no alto do pódio, o que será do trabalho?
Se um time é formado somente por estrelas,
quem vai carregar o piano? Mesmo assim, enxergo
também que tem muita gente que desperdiça
seu talento ficando escondida por medo de alguma
coisa e na realidade esse medo engessa as suas atitudes,
o seu comportamento e anula as suas possibilidades.
RH - Por que as pessoas têm medo de
errar no ambiente de trabalho?
Gilclér Regina - Acho que
as pessoas têm muito medo de errar porque
já traz do berço familiar um histórico
negativo. As pessoas sabem sempre o que não
querem, fazem até lista como não querer
dever em banco, não ter doença, mas
não sabem o que quer de verdade, o seu desejo.
Uma criança com oito anos de idade já
recebeu uma carga aproximada de cem mil vezes a
palavra "não". E esse não
faça isso, não faça aquilo
se perpetua quando entra no mercado de trabalho
e muitos carregam esse fardo por toda a vida. O
que essas pessoas não entenderam é
que coragem não é não ter medo,
ou seja, é ir em frente, apesar do medo.
Limitações todos nós temos,
mas temos uma coisa mais forte dentro de nosso coração
que é o sentimento de poder realizar mais,
fazer mais, pensar positivo, superar os obstáculos
que a vida nos oferece sempre e o gosto pela vitória
acaba tendo um sabor muito mais especial. O problema
é que nem todos enxergam essa possibilidade
pessoal.
RH - Esse medo fortifica-se mais por causa
da cultura organizacional?
Gilclér Regina - Não
tenho dúvida disto. A cultura empresarial
ainda é enraizada na figura do chefe, do
poder e isso é uma lástima. Não
é à toa que quando se ouve o ruído
do carro do chefe no pátio da empresa, o
"corneteiro" que vai avisar à galera
da chegada dele, anuncia aos berros: "O homem"
ou "A mulher". Ou seja, chefe não
tem nem nome. E quando ele entra, todo mundo está
trabalhando "direitinho". E esse medo
da hierarquia acaba influenciando diretamente no
desempenho do trabalho e muita gente acaba não
sabendo conviver com isso e esse medo acaba tendo
uma proporção muito grande engessando
a criatividade do funcionário, do profissional
e sua auto-estima vai lá embaixo, em níveis
insustentáveis. É quando ele toma
a decisão de sair por qualquer coisa ou mesmo
de se anular e ficar garantindo-se, fazendo o mínimo
possível. O que me deixa pasmo é a
empresa de hoje, ciente disso, ficar perdendo talentos
e por conseqüência atingindo resultados
medíocres.
RH - Cometer erros não é um
dos caminhos para o aprendizado?
Gilclér Regina - Para acertar
é preciso antes de qualquer coisa tentar
e para tentar sempre existirá o risco de
errar. Quem não tenta, nem acerta e nem erra.
Portanto, o erro deveria fazer parte do nosso bom
vocabulário empresarial porque é ele
que nos ensina. É verdade que buscamos sempre
o amor, mas a dor ensina mais que o amor. Fernando
Parrado, um dos dezesseis sobreviventes do acidente
aéreo dos Andes, que comeram carne humana
para sobreviver, disse algum tempo atrás
que todos eles, sem distinção, estão
se dando bem na vida profissional, financeira e
familiar. A dor ensinou. Na empresa, o erro fortalece
o acerto. Mas quando o medo de errar é mais
forte, é igual ao futebol quando o atleta
vai chutar um pênalti. As traves encolhem-se,
o goleiro aumenta de tamanho e a bola parece feita
de chumbo.
RH - O erro é realmente necessário
para o desenvolvimento do profissional?
Gilclér Regina - É
claro, assim ninguém mente para ninguém
porque neste mundo não há perfeição,
somente a sua busca. Quando se tem a possibilidade
do erro, o acerto vem de uma maneira mais fácil
e ao mesmo tempo mais sólida. É como
um casal que consegue uma convivência pacífica
e amorosa por muitos e muitos anos. Se você
perguntar a eles se ficaram o tempo todo se olhando
e dizendo se amar, vão rir de você,
porque no dia-a-dia, foi um universo de concessões,
erros e acertos e isso os fortaleceram. Não
tenho dúvida que na empresa é a mesma
coisa. Ninguém aqui está falando que
o grande negócio é errar, apenas que
o erro fortalece o acerto e é necessário
mesmo para o desenvolvimento. Caso contrário,
quando surgir um erro grave, ninguém estará
preparado para repará-lo.
RH - Até que ponto as empresas devem
tolerar os erros de um colaborador?
Gilclér Regina - Neste caso,
é como alguém te enganar. Quando alguém
te engana a primeira vez, a culpa é dele,
mas quando te engana a segunda vez a culpa é
sua. A empresa tem que treinar e o colaborador tem
que aprender. O momento de errar é no treinamento
para que erros não aconteçam no dia-a-dia.
É claro que deverá ocorrer uma análise
se o erro foi muito grave ou mesmo infantil, numa
situação que requeria maior responsabilidade.
Cada caso é um caso. A questão não
é o erro em si, mas a organização
que acaba tendo um clima de terror e o pavor de
errar faz parte do cotidiano. E neste caso, tenho
certeza que os erros são comuns e recorrentes.
RH - De que forma a empresa pode auxiliar
o profissional a sair de dentro da ostra e não
ter medo de errar?
Gilclér Regina - Ah, neste
caso não tenho a menor dúvida que
é o treinamento. A empresa tem que criar
um programa interno de motivação com
o desenvolvimento de palestras para a equipe trabalhe
a questão da motivação, da
atitude, do comportamento, das possibilidades, que
mostre que a vida é feita de 1% de inspiração,
de 999% de transpiração, mas para
fechar essa conta é 100% de atitude. É
aí que entra o pessoal de RH que é
preparado para isso, interagindo com os setores
da empresam, articulando e trabalhando o fator psicológico
de cada um, identificando as necessidades do grupo
e do indivíduo e criando um programa especial
para suprir as deficiências e fortalecer o
que há de bom. Veja, 85% dos líderes
hoje apontam a falta de motivação
como o maior desafio para se atingir objetivos e
é preciso aceitar as diferenças individuais
e ajudar a desenvolver o potencial de cada um.
RH - E quanto à participação
da área de RH, que ações práticas
podem ser tomadas para que as pessoas aprendam que
o risco faz parte do desenvolvimento?
Gilclér Regina - O RH da
empresa é o elo entre os setores, as estratégias
de ação da empresa e os recursos humanos
que a empresa dispõe para atingir os resultados.
Enxergo aí que as empresas deveriam valorizar
mais a área de RH, pois são os aplicadores
das técnicas que identificam a possibilidade
de melhorar o processo produtivo do trabalho, despertando
o potencial dos seus talentos e em conformidade
com a tecnologia que a empresa tem. O RH é
fundamental para buscar recursos, novas formas,
um perfil novo de trabalho, pesquisando inclusive
fora da empresa o que pode trazer para dentro e
dar força aos seus talentos e fazer com que
esses tenham um ambiente de comprometimento com
seus departamentos e com a empresa como um todo,
seja em conhecimento, ou seja, em relacionamento.
RH - Qual o papel do líder diante
de um profissional que cometeu um determinado erro?
Gilclér Regina - Se uma
pessoa está na empresa há mais de
um ano, passou por todos os treinamentos e não
deu certo, é uma incoerência mantê-la.
Se você demitir, neste caso você estará
ajudando três situações: o demitido
que buscará um espaço em outra empresa;
uma outra pessoa que ocupará a vaga seja
da mesma empresa ou vindo de fora e, por último,
a própria empresa que enxergará aí
uma nova etapa e oportunidade de acertar um novo
talento ao seu quadro, o que poderá proporcionar
melhores resultados.Veja, o líder é
o grande treinador, aquele que incentiva as pessoas
aos grandes resultados e para isso, é preciso
trilhar um caminho. Erros acontecem, mas no geral
cada caso é um caso.
RH - A punição deve existir?
Gilclér Regina - Não
vou dizer que não se possa punir, é
evidente que poderão existir casos onde a
punição também fará
parte do jogo. Mas na grande maioria dos casos,
não vejo a punição como a melhor
alternativa. É aquele caso que já
citei de alguém te enganar pela primeira
e pela segunda vez. Chega uma hora que o culpado
não é a instituição
e sim a pessoa, e neste caso o líder tem
que tomar uma posição. Mas o melhor
caminho ainda é o do treinamento. O profissional
que errou foi treinado? Teve um ambiente propício?
O momento de errar é no treinamento. Já
pensou se os pilotos não treinassem nos simuladores?
Quem teria coragem de voar?