O desemprego: flagelo do nosso tempo
 
12 de Dezembro de 2006.     
 


Por Elvina Maciel Lessa

Após quase 70 anos da publicação de "O mal-estar na civilização", texto exemplar e modernista da psicanálise, que deu o prêmio Goethe a Freud, constatamos que a modernidade ainda não trouxe a tão "sonhada felicidade". O iluminismo não tinha tantas luzes para iluminar a civilização. Para Freud, o mal-estar surge com o desenvolvimento da civilização e, é impossível, sustentar a crença de uma humanidade feliz e sem sofrimento. Freud explorou as forças mais enigmáticas da natureza humana, como as pulsões de morte. Sobre a pulsão de morte, Betty Fuks escreve: "quando dirigida ao exterior do sujeito para prestar serviços à lógica do aniquilamento do outro, o que é a base de todas as guerras e dos assassinatos, a pulsão de destruição dissolve e destrói, ruidosamente, tudo o que a vida e a cultura constroem". Fuks. (2006:39)

No texto "Os traumas da modernidade", o filósofo Sérgio Paulo Rouanet, revela que temos épocas traumatogênicas e que desde a origem da humanidade, o homem está exposto a situações de trauma psíquico. Trauma quer dizer ferida em grego e pode ser definida como reação de pânico diante de situações de violência extrema. As situações traumáticas estão sempre ligadas a perdas que exigem um trabalho de luto que nem sempre é bem-sucedido. O desemprego, flagelo do nosso tempo, é uma das fontes mais profundas de traumas. O desemprego estrutural atinge tanto os paises ricos quanto os pobres, em que a vaga do trabalhador é substituída por máquinas ou processos produtivos mais modernos. O sujeito desempregado encontra-se sem perspectivas de conseguir outro emprego e se vê sem saída e solitário. O sujeito sente-se à margem da sociedade, sem referências e sem identidade.

Ainda podemos ressaltar a chamada "síndrome dos sobreviventes", onde a angústia e o medo acompanham os "não demitidos". O sujeito "não demitido" é uma pessoa angustiada, vivendo na expectativa de perder o emprego, muitas vezes no auge de sua carreira, e de suas habilidades e expertise. No texto "Inibição, sintoma e angústia", Freud mostra que a angústia relaciona-se a uma expectativa, a uma espera ansiosa de algo ruim que pode acontecer. O sujeito fica ao sabor dos acontecimentos, tais como a perda de um emprego, um assalto, uma catástrofe ambiental, um ataque terrorista ou a perda de um ente querido. Ele pergunta: "Como vou pagar as contas no final do mês? Serei excluído desse grupo? Qual é o meu lugar neste mundo?". O sintoma é uma das saídas da angústia.

O desemprego tem conseqüências psicológicas devastadoras para o sujeito. Nenhum emprego é garantido e nenhuma posição é inteiramente segura e ainda nenhuma perícia é de utilidade duradoura. O meio de vida e a posição social podem desvanecer-se da noite para o dia. As utopias modernas julgavam que a sabedoria hoje aprendida permaneceria sábia amanhã e as habilidades adquiridas pela vida conservariam sua utilidade para sempre; o que não se vê hoje neste mundo pós-moderno. Há pouco espaço para o planejamento de longo prazo e pouquíssimo tempo para projetar esperanças de longo alcance. O sujeito vive uma vida sob condição de incerteza e essa "incertização" exerce um enorme impacto psicológico. O desaparecimento do emprego é apenas uma dimensão, altamente sintomática, desse processo pós-moderno, denuncia o sociólogo Zygmunt Baulman, no livro "O mal-estar da pós-modernidade". Betty Fuks, no livro "Freud e a cultura", faz a seguinte reflexão: "ninguém pode ignorar que nos dias atuais ressurge a dimensão catastrófica do psiquismo, abrindo uma brecha no centro de novas formas do mal-estar na civilização, como a passagem ao ato violento na delinqüência, as toxicomanias, o totalitarismo que se coloca acima da lei, o fundamentalismo como instrumento da lei divina etc. A existência desses novos sintomas põe à prova o dever da psicanálise". Fuks (2003:64).

É fundamental não só os psicanalistas, mas todas as áreas de conhecimento refeltirem e proporem saídas para o nosso tempo. O trabalho psicanalítico impõe ao psicanalista o destino de se tornar um crítico da cultura que testemunha. Isso significa ir adiante à herança e aos impasses transmitidos por Freud que, ao descobrir o inconsciente, fez uma aguda reflexão dos mecanismos e sintomas culturais que mais chamaram sua atenção. Para Freud e Lacan, o sujeito é marcado, de forma indelével, por representações sociais e políticas de seu tempo.



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