Por Elvina Maciel Lessa
Após quase 70 anos da publicação
de "O mal-estar na civilização",
texto exemplar e modernista da psicanálise,
que deu o prêmio Goethe a Freud, constatamos
que a modernidade ainda não trouxe a tão
"sonhada felicidade". O iluminismo não
tinha tantas luzes para iluminar a civilização.
Para Freud, o mal-estar surge com o desenvolvimento
da civilização e, é impossível,
sustentar a crença de uma humanidade feliz
e sem sofrimento. Freud explorou as forças
mais enigmáticas da natureza humana, como
as pulsões de morte. Sobre a pulsão
de morte, Betty Fuks escreve: "quando dirigida
ao exterior do sujeito para prestar serviços
à lógica do aniquilamento do outro,
o que é a base de todas as guerras e dos
assassinatos, a pulsão de destruição
dissolve e destrói, ruidosamente, tudo o
que a vida e a cultura constroem". Fuks. (2006:39)
No texto "Os traumas da modernidade",
o filósofo Sérgio Paulo Rouanet, revela
que temos épocas traumatogênicas e
que desde a origem da humanidade, o homem está
exposto a situações de trauma psíquico.
Trauma quer dizer ferida em grego e pode ser definida
como reação de pânico diante
de situações de violência extrema.
As situações traumáticas estão
sempre ligadas a perdas que exigem um trabalho de
luto que nem sempre é bem-sucedido. O desemprego,
flagelo do nosso tempo, é uma das fontes
mais profundas de traumas. O desemprego estrutural
atinge tanto os paises ricos quanto os pobres, em
que a vaga do trabalhador é substituída
por máquinas ou processos produtivos mais
modernos. O sujeito desempregado encontra-se sem
perspectivas de conseguir outro emprego e se vê
sem saída e solitário. O sujeito sente-se
à margem da sociedade, sem referências
e sem identidade.
Ainda podemos ressaltar a chamada "síndrome
dos sobreviventes", onde a angústia
e o medo acompanham os "não demitidos".
O sujeito "não demitido" é
uma pessoa angustiada, vivendo na expectativa de
perder o emprego, muitas vezes no auge de sua carreira,
e de suas habilidades e expertise. No texto "Inibição,
sintoma e angústia", Freud mostra que
a angústia relaciona-se a uma expectativa,
a uma espera ansiosa de algo ruim que pode acontecer.
O sujeito fica ao sabor dos acontecimentos, tais
como a perda de um emprego, um assalto, uma catástrofe
ambiental, um ataque terrorista ou a perda de um
ente querido. Ele pergunta: "Como vou pagar
as contas no final do mês? Serei excluído
desse grupo? Qual é o meu lugar neste mundo?".
O sintoma é uma das saídas da angústia.
O desemprego tem conseqüências psicológicas
devastadoras para o sujeito. Nenhum emprego é
garantido e nenhuma posição é
inteiramente segura e ainda nenhuma perícia
é de utilidade duradoura. O meio de vida
e a posição social podem desvanecer-se
da noite para o dia. As utopias modernas julgavam
que a sabedoria hoje aprendida permaneceria sábia
amanhã e as habilidades adquiridas pela vida
conservariam sua utilidade para sempre; o que não
se vê hoje neste mundo pós-moderno.
Há pouco espaço para o planejamento
de longo prazo e pouquíssimo tempo para projetar
esperanças de longo alcance. O sujeito vive
uma vida sob condição de incerteza
e essa "incertização" exerce
um enorme impacto psicológico. O desaparecimento
do emprego é apenas uma dimensão,
altamente sintomática, desse processo pós-moderno,
denuncia o sociólogo Zygmunt Baulman, no
livro "O mal-estar da pós-modernidade".
Betty Fuks, no livro "Freud e a cultura",
faz a seguinte reflexão: "ninguém
pode ignorar que nos dias atuais ressurge a dimensão
catastrófica do psiquismo, abrindo uma brecha
no centro de novas formas do mal-estar na civilização,
como a passagem ao ato violento na delinqüência,
as toxicomanias, o totalitarismo que se coloca acima
da lei, o fundamentalismo como instrumento da lei
divina etc. A existência desses novos sintomas
põe à prova o dever da psicanálise".
Fuks (2003:64).
É fundamental não só os psicanalistas,
mas todas as áreas de conhecimento refeltirem
e proporem saídas para o nosso tempo. O trabalho
psicanalítico impõe ao psicanalista
o destino de se tornar um crítico da cultura
que testemunha. Isso significa ir adiante à
herança e aos impasses transmitidos por Freud
que, ao descobrir o inconsciente, fez uma aguda
reflexão dos mecanismos e sintomas culturais
que mais chamaram sua atenção. Para
Freud e Lacan, o sujeito é marcado, de forma
indelével, por representações
sociais e políticas de seu tempo.