Pois é, seleção é um
desafio mesmo. Lançamos mão dos mais
variados recursos de avaliação para
conhecer o perfil do candidato. Entrevistas, testes,
dinâmicas, ferramentas de assessment da última
moda, referências profissionais, e por aí vai.
Enfim, no “frigir dos ovos”, a finalidade
de tudo isto é responder à questão: “como
esta pessoa que está aqui na minha frente
se comporta quando não está na minha
frente?”.
E a entrevista como típico momento de venda
que é, tem como finalidade apresentar o
produto. Mais do que isto. É convencer, é persuadir
de que aquele é o melhor produto. E claro
que o vendedor só vai apresentar aquilo
que tem de bom e passar uma “maquiagem” naquilo
que não é tão bom assim. Uma
frase melhor elaborada aqui, uma palavra mais neutra
lá, e assim vai. Que jogue a primeira pedra
quem nunca ouviu de um candidato o clássico “estou
em busca de novos desafios...”? Que dentre
outras coisas pode ser o jeito polido de dizer “to
de saco cheio do meu emprego, quero sair daquela
droga!”.
Enfim, avaliar um perfil é isto. É tentar
tirar estas máscaras, exatamente quebrando
as frases prontas e procurando os reais motivos
que levam um profissional a procurar o tal de novo
desafio. Mas apesar do esforço, uma das
coisas que nos escapa vez ou outra é justamente
a desistência de um candidato. O processo
correu tudo bem; currículo excelente, candidato
entusiasmado com a vaga, entrevista boa, testes
melhores ainda. Enfim, tudo certo. Até o
momento em que recebemos “aquele” fatídico
e-mail:
“...em conversa com meu gerente, cheguei à conclusão
de que não é o momento para eu sair daqui...”. Ou
pior: “recebi uma contra-proposta da empresa e decidi declinar do
processo...”.
Os desfechos são os mais variados. Não
importa. O fato é que perdemos o candidato
e o processo terá de ser reiniciado. Nem
precisamos dizer o que isto causa nas pessoas envolvidas.
Frustração, sentimento de traição,
impotência, raiva. E muita raiva! Dizer que
todos fomos “vítimas” de um
candidato sem ética, sem maturidade, sem
isso e sem aquilo pode até aliviar a frustração.
Mas só alívio não gera mudanças.
Tampouco melhorias.
Pois é, realmente não existem bolas
de cristal e todos nós estamos à mercê de
fatos como este. Por mais que lancemos mão
de ferramentas de avaliação, todo
este aparato é mera peneira; retêm
somente as coisas mais “grosseiras”,
muitas outras nos escapam.Tornar-se um “sênior” em
seleção, dentre outras coisas, é justamente
refinar esta peneira.
Realmente, acho pouco provável que um dia
consigamos prever com exatidão quão
vulnerável um candidato está a declinar
de um processo. Mas talvez seja possível “comer
algumas coisas pela borda”. Questionar, por
exemplo, como foram os processos de entrada e saída
do candidato nos empregos anteriores ou talvez
como é o diálogo deste candidato
com seu empregador atual. Talvez ele tenha uma
série de queixas, porém nunca as
expôs ao seu superior. E ao expô-las
no suposto dia do pedido de demissão, seu
chefe o acolhe e lhe dá aquele tão
desejado ombro paternal. Resultado? Candidato perdido!
Vai declinar do nosso processo.
Candidatos cujo histórico pessoal, familiar
e social foi todo construído numa só cidade
ou região talvez sejam menos suscetíveis
a uma mudança. Família grande; sempre
se reúnem aos finais de semana na casa dos
pais ou sogros. Enfim, indicativos de que esta
pessoa cultiva fortemente estes valores e tem raízes
naquele local. Inicialmente, pode até aceitar
a proposta de trabalhar num lugar distante, mas
na primeira oportunidade...
Destaco: não existem fórmulas e isto
aqui não é ciência exata. Um
candidato com raízes numa cidade ou região,
por exemplo, não quer dizer necessariamente
que deva ser descartado. Não é isto.
São meras pistas para que o entrevistador
seja mais perspicaz e até mais franco na
abordagem.
E quero concluir minha reflexão falando
justamente sobre isto: franqueza, honestidade,
humildade. Muitas vezes, falta a nós - profissionais
de seleção - um pouco mais de franqueza
na abordagem. Por que não colocar as cartas
na mesa e dizer de forma franca e honesta ao candidato
que você não pode correr o risco de
perdê-lo ao final? E, portanto, se o mesmo
quer um ou dois dias para pensar antes de embarcar
no processo. Desta forma, é melhor que o
faça.
- “A possibilidade de mudar de emprego já está bem
resolvida para você?”.
- “Se você chegar ao seu gerente hoje e pedir demissão,
você acha que receberá uma contra-proposta?”.
- “Você sabe que declinar de um processo ao final pode fragilizar
nossa imagem no mercado; você quer um tempo para pensar antes de prosseguirmos?”.
Franqueza, honestidade, humildade. Sair um pouco
daquele trono de adivinho, onde através
de perguntas sorrateiras tentamos “descobrir” o
que se passa na cabeça do “pobre
mortal”. Ora, sejamos claros (e humildes,
conclamo!) para com os candidatos. Ainda acredito
que a franqueza, a honestidade e a humildade desfazem
máscaras. E fecha vagas também.