Virei gerente. E agora?

 
1 de Dezembro de 2008
 

Assumir uma posição de gestor é uma evolução na carreira. Mas é preciso habilidade para encarar as responsabilidades e enfrentar as mudanças que o novo cargo impõe
Por Bruno Vieira Feijó

Durante anos, você se prepara, investe em sua formação, trabalha pesado, mostra entusiasmo, suporta a pressão, engole sapos diversos e luta para se destacar dos demais. Um dia, vem a noticia pela qual espera há tempos — você vai virar gerente! É hora de comemorar. Seu plano de carreira finalmente deu frutos. Logo, no entanto, vem a descoberta: a vida de gerente não é fácil. “Existe uma espécie de preço a ser pago por quem assume um cargo executivo”, diz a psicóloga Ana P. Fraiman, autora do livro O Chefe dos Meus Sonhos (Alexa Editorial). Você vai ganhar mais e vai se destacar, mas terá de fazer alguns sacrifícios e se adaptar a uma nova realidade.

A você s/a ouviu as recomendações de especialistas de carreira e conversou com executivos que já viveram essa experiência. Eles nos revelam as principais agruras pelas quais passam os jovens gerentes. Confira a seguir as dicas para superar esses obstáculos e mostrar resultados desde o primeiro dia no novo cargo.

LIDERAR NÃO É FÁCIL
Para Fernando Marcomin, de 29 anos, gerente de marketing da Carlson Wagonlit Travel, agência de viagem do Grupo Accor, assumir o papel de chefe foi a parte mais difícil da promoção a gerente. “A maior mudança que senti ao chegar ao alto escalão é que deixei de ficar responsável apenas por bater metas individuais de desempenho e passei a ter responsabilidade por várias pessoas, cada uma com suas qualidades e defeitos”, diz Fernando. Hoje, ele é o primeiro a ser cobrado por qualquer problema que comprometa o desempenho de sua equipe. E mais: precisa se preocupar com tarefas que antes não lhe diziam respeito, como preparar um sucessor e treinar pessoas ao mesmo tempo em que é treinado. “Uma coisa era dar satisfação ao meu superior por algo que só dependia de mim”, diz Fernando. “Demorei a entender que meu sucesso depende do sucesso de mais gente.”

Como resolver
“Para motivar os subordinados, procure transmitir humildade, confiança e perspectivas”, recomenda Fabiana Nakazone, da Cia de Talentos, consultoria com sede em São Paulo. “Conte sua trajetória. Mostre as conquistas do time e como todos serão reconhecidos se fizerem mais. A equipe anda sozinha se entender a meta. Quando isso acontece, a pressão por delegar e cobrar resultados fica amenizada.”

A PRÓXIMA PROMOÇÃO FICA MAIS DIFÍCIL
A promoção é um atestado de competência e um reconhecimento da empresa, que vê em você sinal de maturidade para avançar para o próximo nível. Entre os jovens considerados high potencial, é comum conquistar uma gerência depois de três anos em uma função operacional. A partir daí, as promoções começam a demorar. “É nessa fase que o profissional costuma achar que a empresa não está lhe dando o devido valor”, diz Ana Fraiman.

Como resolver
Exercitar a paciência e a tolerância será uma qualidade. Pesquisa realizada em 2007 pela consultoria Hay Group aponta a idade em que os profissionais brasileiros recebem boas oportunidade: entre 40 e 49 anos. A recomendação é fazer a chamada movimentação horizontal — peça transferência para áreas que o ajudem a ganhar um olhar mais abrangente sobre os negócios da empresa, ainda que sem subir de cargo e de salário. “Foi crescendo assim que muitos presidentes chegaram aonde estão”, diz Fernando Mantovani, diretor da filial São Paulo da Robert Half, consultoria americana de recrutamento. Outra opção é assumir novas responsabilidades. “Um estímulo pode ser virar coach ou mentor dos novatos”, diz Fernando.

É PRECISO ADEQUAR O FIGURINO
É uma constatação: quanto mais alto o cargo, mais se faz necessária a adequação à cultura da empresa. “Não está escrito em nenhum manual, porém, cada companhia tem seu código de comportamento”, diz Fabiana Nakazone, gerente da Cia de Talentos. “Quando se é promovido a gerente, o espaço para contestar a cultura corporativa diminui, já que agora o profissional deve refletir a imagem que a organização quer passar a subordinados, clientes, concorrentes e fornecedores.” Para o publicitário Raphael Vasconcellos, de 31 anos, diretor executivo de criação da Agência Click, especilizada em publicidade online, isso significou ganhar um visual mais sério. “Eu detestava a idéia de usar terno e gravata, e ainda tinha cabelo comprido, que precisei cortar quando passei a comandar negociações entre a agência e grande parte dos clientes”, diz Raphael. “Conforme passei a chefiar equipes cada vez maiores, não só mantive esse posicionamento formal, como senti necessidade de renovar constantemente o guarda-roupa e comprar ternos mais bem cortados, que condiziam com o cargo e com os meus pares.” Claro que você não deve se distanciar do que é fora do expediente ou do que fazia antes de ser promovido. Chefe também é ser humano, pode — e deve — demonstrar emoção. “No entanto, não dê margem para que sua credibilidade seja minada. Todas as suas atitudes são observadas e copiadas como exemplo”, diz Fernando Mantovani, da consultoria Robert Half.

Como resolver
Se você tem dificuldades em se adaptar, procure trabalhar em locais que contratem pessoas parecidas com seu estilo. “Enquanto algumas organizações buscam profissionais informais, agressivamente competitivos e ambiciosos, outras prezam mais as relações de longo prazo e o formalismo no trato com os superiores”, diz Fabiana Nakazone, da Cia de Talentos.

SENSAÇÃO DE PERDA DO CONTROLE SOBRE O TEMPO
Ao se tornar gerente, a quantidade de tarefas aumenta — e gerenciar o tempo é uma questão. Às vezes, nem é pressão da companhia, mas ansiedade do profissional, que se vê cercado por decisões estratégicas que precisam ser tomadas o tempo todo. É o caso de Danilo Nogueira, de 33 anos, diretor do grupo inglês ABF e responsável pelas marcas Ovomaltine e Twinings na América Latina. “Quando virei gerente, fiquei oito anos sem férias.” Mesmo nos fins de semana, Danilo respondia a dezenas de e-mails dos funcionários. “Quase terminei meu namoro”, diz. Ele só foi entender a importância das férias quando passou a trabalhar numa empresa que obrigava os funcionários a descansar 20 dias por ano. “Percebi que férias são importantes para a produtividade e passei a organizar melhor a minha agenda”, afirma Danilo Nogueira.

Como resolver
“Concentre-se em apenas um assunto por vez, sem adiar nada, pois assim é mais fácil pensar em todos os impactos que cada decisão terá para a empresa”, diz Fernando Mantovani, da Robert Half. Defina prioridades e separe as agendas de casa e a do trabalho. “Se há uma apresentação a ser feita ao chefe na segunda de manhã, por exemplo, eu deixo tudo engatilhado na sexta, ainda que eu tenha de ficar até mais tarde no escritório. Pelo menos me livro de me preocupar o fim de semana inteiro”, diz Fernando Marcomin, da Carlson Wagonlit
Revista Você S/A  Novembro



 
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