''Otimismo pode voltar no 2º semestre''

 
05 de Junho de 2009
 



Jérôme Cazes: presidente mundial da Coface; Números preliminares de abril já são sinais de melhora, com alguma estabilização no cenário de risco de crédito

Fernando Dantas, RIO


Se nenhuma notícia muito ruim abalar a economia global nos próximos meses, é possível que se inicie um momento mais otimista no segundo semestre, com milhões de empresas no mundo todo voltando a tocar planos de investimento, contratação, crédito, etc. A previsão é de Jérôme Cazes, presidente mundial da empresa francesa Coface, uma das maiores seguradoras mundiais de risco de crédito comercial (entre empresas)do mundo, com uma carteira de 500 bilhões.

Cobrindo o risco de crédito de mais de 2,5 milhões de empresas no mundo todo, a Coface tem um poderoso termômetro da economia real, que permitiu que Cazes previsse, em entrevista ao jornal Valor em janeiro de 2008, "um banho de sangue na indústria financeira". Modesto, ele relativiza o seu prognóstico, dizendo que a piora depois da concordata do Lehman Brothers, em setembro do ano passado, ultrapassou em muito a sua previsão. O Brasil e a Índia, diz o executivo, foram os únicos países grandes a não ser rebaixados na sua classificação (rating) da Coface depois da crise. O Brasil que é A4, já em nível de grau de investimento, foi protegido pela cautela do governo, dos bancos e das empresas, segundo Cazes. A seguir, trechos da entrevista.

A Coface previu a crise global? Bem, o que chamamos de crise de crédito é quando há uma explosão de inadimplência entre as empresas. Nossa mensagem em janeiro de 2008 era de que estávamos de volta a uma crise global de crédito. Houve quatro delas desde a Segunda Guerra Mundial, no começo dos anos 70, nos anos 80, nos anos 90, e em 2001 e 2002, com a bolha da internet. Agora, estamos na quinta crise, em função da securitização e do subprime. E, na verdade, estávamos certos em dizer que haveria a crise, mas estávamos errados em avaliá-la.

Por quê?

Achamos que ela seria tão severa quanto as três que a precederam, e na verdade houve uma segunda fase, ou uma segunda crise, no quarto trimestre de 2008, após a falência do Lehman. Agora estamos naquilo, que na nossa experiência, é a pior crise de crédito desde a Segunda Guerra Mundial.

Como vocês medem a intensidade da crise?

Há uma crise de crédito global quando o crescimento do mundo cai mais de dois pontos. Isto ocorre muito pouco, só aconteceu cinco vezes nos últimos cinquenta anos. Não há como evitar crise de crédito quando há tamanha queda no crescimento. Porque a primeira razão para uma empresa falir é uma queda na demanda, para a qual não pode se adaptar.

Como esta crise se compara com as demais?

Bem, a minha previsão no início de 2008 seria de que esta crise teria uma queda de crescimento global entre o melhor ano precedente - no caso, 2007 - e o pior ano, que deve ser 2009, de 2,5 pontos porcentuais. Agora, a nossa última estimativa para esta mesma queda é de 5,7 pontos porcentuais - crescimento de 4% em 2007, e de 1,7 negativo em 2009. Entre as outras crises de crédito que eu mencionei, a pior, até agora, tinha sido a do primeiro choque de petróleo, em meados dos anos 70, de 4,9.

A crise de agora acabou sendo bem pior do que a sua previsão?

Sim. De certa forma, com a falência do Lehman, houve uma segunda crise: pela primeira vez no mundo, todas as empresas em todos os países em todos os setores tomaram nas mesmas semanas as mesmas decisões: cancelar os projetos de investimento, reduzir o número de funcionários, evitar ir ao banco, ajustar para baixo o crescimento. Este ajuste todo produziu uma maciça segunda queda no crescimento mundial. A análise macro indica, portanto, que estamos na maior queda da economia mundial desde a Segunda Guerra Mundial, e que não parou ainda. A queda, aliás, continua. Ainda estamos em crescimento negativo no mundo. O último trimestre de 2008 foi horrível, o primeiro trimestre de 2009 foi horrível, e a grande questão é quando a estabilização vai acontecer.

O sr. também tem uma perspectiva microeconômica para a analisar a crise de crédito?

Sim, pelo fato de cobrirmos o risco de crédito comercial de mais de 2,5 milhões de empresas no mundo inteiro. Todos os dias somos apresentados com requerimentos de indenização (por falta de pagamento de obrigações em relações comerciais). São empresas que têm apólices de seguro conosco e requerem uma indenização. É um meio excelente e muito rápido de medir a inadimplência no mundo.

E o que esse radar mostrou?

Houve uma primeira parte da crise em janeiro de 2008, o número habitual de pedidos de indenização cresceu 50%. A crise começou em janeiro na Espanha, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, e este início foi muito brutal. Em 2007, tínhamos aproximadamente 3 mil pedidos de indenização por mês. No começo de 2008, cresceram para 4,5 mil. Então aconteceu o Lehman, no quarto trimestre, e o número subiu para 8,8 mil por mês - três vezes a média de 2007.

Quais são as perspectivas?

É um pouco difícil responder. Se eu olhar os números de março, eles são muito ruins, e não há sinal de que a situação está melhorando. Agora, se olhar para as primeiras semanas de abril, está melhor, uns 20% a menos no número de pedidos. Mas não dá para ter certeza de nada só com 20 dias. Se formos infelizes o suficiente para ter alguma grande má notícia nos próximos quatro ou cinco meses, poderia ser criada de certa forma uma terceira crise. Se pudermos evitá-la - de vez em quando também se tem sorte - as coisas podem melhorar. Se houve uma má notícia, poderíamos ter uma terceira crise, e aí seria ainda pior do que estamos prevendo.

Qual é o cenário desta possível melhora?

A nossa ideia é de que pode haver uma melhora a partir deste trimestre. Isto porque, numa crise de crédito, mesmo que seja muito forte, do momento em que o crescimento deixa de cair, as empresas se estabilizam. O que as empresas detestam é quando não podem fazer nenhum plano. Com seu livro de encomendas diminuindo a cada dia, nenhuma empresa pode fazer planos, funcionar direito. Na hora em que se chega ao piso, não significa que a situação tenha ficado boa, mas significa que elas podem se organizar.

Ainda parece haver muito pessimismo.

As crises também acontecem nas mentes, não apenas nos números. Até meados do ano, todo mundo estará muito ligado na crise, mas vamos começar a ter algumas boas notícias no segundo trimestre. No momento, está todo mundo pessimista porque está lendo os números do primeiro trimestre. A melhora no segundo trimestre só será conhecida por volta de junho a agosto. Acho que poderíamos chegar ao piso no mercado residencial nos EUA por volta do meio do ano. Nessa hora, poderíamos ter o efeito simétrico do que aconteceu em setembro de 2008, isto é, todo mundo ficar otimista ao mesmo tempo, com impacto positivo nas bolsas, nas decisões de investimento, de contratação, em todo o tipo de decisão microeconômica.

Em termos das regiões do mundo, como o sr. vê a crise?

Os que foram menos seriamente atingidos foram a África e o Oriente Médio até agora. No caso da África, porque não são tão integrados no comércio mundial, e, no caso do Oriente Médio, eles têm um colchão de dinheiro que absorve o choque. A Ásia foi muito atingida mas deve escapar mais rapidamente que os demais. Entre os mais severamente atingidos, estão, nos mercados emergentes, a Europa Central e a Rússia. E há também os Estados Unidos e a Europa Ocidental. A América Latina demorou para ser atingida, e foi menos afetada do que outros continentes. Só dois países grandes não foram rebaixados,Índia e Brasil, entre os 120 para os quais fazemos rating.

Por que o Brasil não foi rebaixado?

As empresas foram mais cautelosas do que na Europa Central, estão menos endividadas em moeda estrangeira. Elas estão mais preparadas para encarar a turbulência atual. As autoridades foram bastante cautelosas também. Os bancos foram cautelosos - sei que algumas vezes os brasileiros dizem que os bancos são cautelosos demais, mas no fim valeu a pena, porque não cometeram os mesmos erros que os americanos, japoneses e europeus.



Quem é:
Jérôme Cazes


É presidente mundial da empresa francesa Coface, uma das maiores seguradoras mundiais de risco de crédito entre empresas

É formado pela Escola Nacional de Estatística e Administração Econômica (ENSAE) e Escola Nacional de Administração (ENA), na França

Trabalhou para o governo da França entre 1981 e 1989


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