Network: como usar o e-mail a seu favor

 
17 de Agosto de 2009
 



Luís Sérgio Lico

Não é incomum que eu receba por semana milhares de e-mails com diversos tipos de pedidos. Muitos são para agendar datas de palestras e cursos; outros de informações, amigos, profissionais e desconhecidos sobre ajuda técnica, pedagógica, entrevistas e assuntos variados; incluindo muito, muito lixo. Destes últimos, minha memória de elefante ameaça: não comprarei, jamais.

Aliás, esta deve ser a rotina dos demais seres info-organizacionais, quer dizer, humanos. Para estas espécies, cujo anteparo virtual de seu habitat é de concreto e ar condicionado, o correio eletrônico é uma atividade que absorve muitas vidas, quase integralmente. Por isso e spammers fora, vamos olhar mais para o conteúdo que se pede. Isto revela muito sobre o campo psicológico e empresarial que a pessoa se encontra neste momento. Vai do cômico ao atroz.

Eu sei que o e-mail é somente a primeira onda dos comunicadores e que hoje tem todo tipo possível de mídias e tal. Não é disso que eu falo, e sim, do ato de escrever, que ainda guarda raízes nos afetos individuais e, através dele, se demonstram nossos graus de maturidade ou insanidade. Como a mensagem eletrônica é a sucessora das cartas, podemos analisar o grau de despreparo, até os cegantes desesperos. Um psiquiatra que analisasse o caso, certamente internaria a maioria.

Alguém, certamente, já recebeu mensagens de pessoas gritando, com aquelas maiúsculas no texto, só por causa de um ponto de vista ou um erro de digitação. O mudo virtual, como a natureza, não possui compaixão. Outro caso clássico é a pessoa que responde para você, quando o correto seria ela ler o e-mail e responder para o contato no corpo do texto.

Em fóruns de comentários, nos mega portais da web, a inanidade das opiniões. A cada notícia segue-se abaixo um festival de obscenidades de um vazio ético colossal. Nas listas de discussão, então, nem se fala. Basta alguém destoar na postagem para que um exército de fuinhas brade seus tacapes filisteus contra o desavisado. Ok. Tem gente que merece, mesmo. Mas, via de regra, nós precisamos disciplinar isto, pois deixa claro que tipo de emoções nós represamos. Responda sempre com classe e após ler bem.

O fenômeno da escrita, como convive há milênios conosco, está tão entranhado em nossa maneira de expressão que podemos exagerar na dose. Para mais ou menos. Sim, pois tem gente também que aderiu à Novilíngua, onde menos é mais e qualquer frase pode conter uma "crimidéia". Você manda um descritivo técnico ou proposta e pede que leiam quatro parágrafos, retornando com sua análise ou informações e a pessoa diz: "Ok". Depois disso, não manda mais nada e, até recusa falar contigo. Depois, na presença do chefe, vai dizer que você está "engessando" o processo. Tem também aquele que dispara cem e-mails sobre assuntos triviais e, quando você pergunta sobre o que foi decidido, a pessoa diz: "Não sei, perdi o email. Manda de novo".

Imagine então, se convivermos com um alto grau de destempero, como veremos o cidadão ao longo do tempo? Não mais levaremos a sério e deletamos qualquer recebimento. Quer um exemplo? Você acredita nas conspirações da "rádio peão", nas paranóias do chefe sobre atingir metas ou naquela amiga insegura que vive mandando correntes? Muito provável que, a cada onda de pressão, as pessoas comentem: "O cara escreveu muito hoje", "Nossa! Ontem, o texto veio em corpo 35 negrito, versal! ‘Pára de mandar anexo PPT com musiquinha!'". Xii, a pessoa não responde mais.

O network legítimo é baseado nas relações civilizadas que mantemos com as pessoas, em modo virtual. Pense sempre que guardamos simpatia por quem nos reconhece e, principalmente, não nos aborrece ou ofende a inteligência. Antes de perguntar, se não gostar de livros, consulte o Google. A recíproca também é verdadeira. Assim, pense antes de mandar uma mensagem e, nunca, se for possível, deixe de responder a uma questão importante. Todos nós agradecemos, pois, como vocês sabem gentileza gera gentileza e este é o caminho para um bom relacionamento com as pessoas.


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