As dificuldades de administrar empresas familiares

 
08 de Outubro de 2009
 



Élida Bezerra

Instituir e conduzir um negócio de forma competitiva e estratégica no atual mercado corporativo não é uma tarefa muito fácil. Desafios e dificuldades são comuns a qualquer companhia, seja ela administrada por parentes ou não. No entanto, as empresas familiares apresentam maior complexidade na gestão organizacional. Uma das razões para esse fato são os conflitos vivenciados por essas corporações que podem acontecer, por exemplo, devido à cultura familiar, ou seja, as relações emocionais entre os membros da família no ambiente de trabalho podem impactar o relacionamento profissional dos mesmos. Outro motivo preocupante é a falta de profissionalização nessas organizações, uma vez que a ausência de capacitação profissional dos integrantes pode interferir e prejudicar a condução dos negócios.

De acordo com o consultor Domingos Ricca, é muito importante que haja o desenvolvimento de uma mentalidade racional e profissional. "O fundamental é que a família assuma o processo de profissionalização, pois é isso que determinará a perpetuação dos negócios sonhados pelo fundador para as futuras gerações de sua família", destaca. Em entrevista ao RH.com.br, ele apresenta os problemas que as empresas familiares enfrentam para se manterem no mercado, além dos pontos essenciais para essas organizações se manterem competitivas. Ricca é sócio-diretor da DS Consultoria Empresarial e Educacional e da Revista Familiar, consultor especializado em empresas familiares e autor dos livros "Da Empresa Familiar à Empresa Profissional" e "Sucessão na Empresa Familiar: Conflitos e Soluções". Confira a entrevista e tenha uma boa leitura.


RH.com.br - Quais as principais características de uma empresa familiar?

Domingos Ricca - O que caracteriza uma organização como empresa familiar são os seguintes pontos: o fato da segunda geração já começar a atuar na empresa da família; problemas na transferência de carisma e liderança do fundador para seus herdeiros, visto que estas são conquistas e não heranças, além de conflito entre gerações. A credibilidade é a palavra do fundador, respaldado pelo nome da família, base do desenvolvimento da empresa na localidade em que a mesma está inserida.

RH - Quais as vantagens e as desvantagens de se manter um negócio em família?

Domingos Ricca - A grande vantagem é o fato do nome da família e dos seus valores fazerem parte da constituição da empresa, ou seja, existe um diferencial de credibilidade quando a chancela que respalda os negócios é um sobrenome que deve ser honrado e que, muitas vezes tem um reconhecimento da comunidade em que a organização está inserida. A desvantagem está calcada na falta de profissionalização, pois isto faz com que haja nepotismo, relações emocionais no ambiente de trabalho, alocação de herdeiros em cargos de gestão sem a devida competência, entre outros fatores.

RH - Nas empresas familiares é comum conflitos nos relacionamentos, pois muitas pessoas não sabem por limites entre vida pessoal e profissional. Nesse caso, como os problemas na convivência podem ser administrados?

Domingos Ricca - Esses conflitos podem ser minimizados por meio de uma gestão profissionalizada. O fundamental é que a família assuma o processo de profissionalização, pois é isso que determinará a perpetuação dos negócios sonhados pelo fundador para as futuras gerações de sua família. É importante que ela administre os negócios, quer seja no dia-a-dia, quer seja por meio de um Conselho de Administração. O que é indispensável é estabelecer uma atitude profissional frente aos negócios. Isso implica escolher as pessoas para atuarem na corporação pela competência que têm, não pelo grau de parentesco. Deve haver um código de ética e de conduta que norteie as ações.

RH - De que forma a direção da empresa pode evitar os conflitos no ambiente de trabalho?

Domingos Ricca - A gerência da organização pode desenvolver regras e padrões de conduta, tais como manual de procedimento e código de ética. Vale ressaltar que eles devem valer para todos os funcionários, herdeiros ou não. Isso é profissionalização.

RH - Quando o conflito no ambiente de trabalho é gerado por problemas pessoais dentro da família, é sinal de que a sociedade deve ser desfeita?

Domingos Ricca - É sinal de que deve haver um entendimento. Não é só a organização que está vinculada a essas pessoas e sim, empresa, família e propriedade. Quanto mais as pessoas lutarem por um entendimento, menos fragmentado estarão a empresa, a família e o patrimônio construído. As pessoas passam e a empresa continua. O que demorou décadas para ser estabelecido pode ser destruído em menos de um ano. O nome, a marca e a credibilidade deixam de existir muito rapidamente.

RH - Quais os caminhos para profissionalizar os dirigentes de uma empresa familiar?

Domingos Ricca - O fundamental é o desenvolvimento de uma mentalidade que seja racional e profissional na condução dos negócios. É por isso que muitos recorrem a consultorias, para que haja mediação de conflitos e clarificação de posicionamentos que desenvolvam ações em favor da empresa, sem interferências emocionais.

RH - A área de Recursos Humanos encontra maior dificuldade de atuar em uma empresa familiar?

Domingos Ricca - Isso não é uma verdade absoluta. Só ocorre quando há falta de profissionalização na condução dos negócios. É difícil estabelecer parâmetros e controles de ação, quando a alta administração não os segue. A falta de exemplo que pode vir do filho do dono que não tem horário para trabalhar ou não tem comprometimento com suas responsabilidades, muitas vezes, afeta a forma de conduta dos demais funcionários. Esse é apenas um exemplo. Além disso, em diversas ocasiões existe o nepotismo, que atrapalha a condução de atividades vinculadas ao RH com eficiência e equidade.

RH -
Na sua opinião, é mais fácil os gestores manterem um bom relacionamento de trabalho quando não atuam em uma empresa familiar?

Domingos Ricca -
Não, pois pode haver inadequação entre o empregado e a cultura ou a estrutura organizacional, independentemente do fato da organização ser familiar. No caso de empresas familiares, os gestores que assumem as funções e os cargos de direção da companhia, só o fazem quando há confiança da família, o que facilita o relacionamento entre as partes.

RH -
Quando chega o momento da sucessão em uma organização familiar, é mais viável manter um membro da família à frente dos negócios ou contratar um executivo bem conceituado no mercado?

Domingos Ricca -
Em minha opinião, deve sempre haver uma preferência por membros da família, desde que haja perfil vinculado à vaga e um herdeiro preparado para assumir o cargo. É melhor que alguém da família assuma, pela facilidade de adaptação e entendimento dos negócios. Caso contrário, é possível a contratação de um profissional externo sem maiores problemas, desde que ele entenda e adapte-se à cultura da empresa. Esse fator é fundamental para a sobrevivência do profissional externo no cargo.

RH -
Para o Sr., como deve ser sucessão familiar no mercado corporativo?

Domingos Ricca -
O processo deve seguir um padrão de transparência e demonstração da competência do herdeiro que assumirá os negócios. Assim, não há desconfiança sobre a continuidade do padrão estabelecido pela empresa no mercado.

RH - A que fato deve-se o sucesso ou o fracasso das empresas administradas por parentes?

Domingos Ricca - O sucesso vai depender da união da família e da escolha de um membro da família que possa suceder o fundador de maneira consensual. A melhor sucessão é quando o fundador está vivo e pode participar e direcionar esse processo.

Já o fracasso está relacionado à morte prematura do fundador; à empresa estar despreparada para a sucessão; ao conflito familiar e à entrada de muitos parentes e agregados querendo comandar a organização.

 

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